domingo, 19 de agosto de 2012

Anotação do Tempo: Dissertação sobre a natureza das metáforas...

Pássaro Azul

Dissertação sobre a natureza das metáforas...

Dizia um grande filólogo (e cito de memória),
com um certo ar de provocação,
o que irritou os néscios poetas do seu tempo,
que as metáforas apenas podem ser de três categorias,
a saber:

Primeiro: As grandes metáforas, as metáforas geniais,
que são aquelas que podem recriar-se na linguagem
de todas as expressões da Arte,
o que as eleva ao cume da universalidade,
colocando-as assim no patamar superior da eternidade.
É o caso da metáfora do Pássaro Azul,
que já se exprimiu na poesia e que emblematicamente
também aparece na linguagem corporal da dança,
assim como já deu o nome, o corpo e a sua essência
à narrativa de um livro, depois adaptada
à última das nobres artes.
Um cantor também a recriou,
na urdidura do poema com a música.
Até Pablo Picasso, na aurora da sua fama,
sobrevoou a pintura com os seus imaginários azuis
nos diversos recortes estilizados
de variados significados, os estilísticos e os temáticos.
Com ele, na vanguarda da arte, aquela que abre
caminhos e futuros e derrama uma nova luz,
despertando curiosos olhares sobre as coisas e sobre cores,
a metáfora agarrou, no encantamento da sua beleza,
a amplitude da sua incólume grandeza.

Segundo: As metáforas vulgares, que são aquelas
que qualquer pessoa utiliza,
e que andam mordidas pelas bocas do mundo.
Aceitam-se e consomem-se.
Até os caçadores de tordos e de patos-bravos,
enquanto cravam os olhos cintilantes de prazer
nas miras assassinas das espingardas,
não deixam de imaginar-se, imitando as aves de rapina,
a rasgar o ar em voos concêntricos, para depois,
em voo rasante, destroçar a presa,
de todo em todo indefesa das ferozes garras penetrantes,
o que também é uma metáfora,
talvez até uma metáfora incandescente de prazer,
que se identifica muito com o desejo irreprimível de matar
e com o orgasmo doentio de ver morrer.

Terceiro: As metáforas inúteis, que são aquelas
que de tanto quererem dizer, nada dizem,
e essas são para esquecer.
Até os seus autores acabam por não as entender.
Alexandre de Castro

5 comentários:

olimpio pinto disse...

Esse filólogo que citas, diz coisa interessante! - Fez-me lembrar o filme "O Carteiro de Pablo Neruda" (Il Postino), em particular o diálogo da Beatrice com a sua tia, acerca das "misteriosas" mas "terrivelmente eficazes" metáforas do apaixonado Mário!
Olha se o filólogo, além de o ser, fosse também poeta!!

Abraço.

Alexandre de Castro disse...

Se o filólogo fosse um poeta igual aos que pululam pelo Facebook, que fazem versos às escadinhas e de pé quebrado e ainda tomam a rima como regra geral, não tenhas dúvidas que ficaria na mira do meu poema, assim como ficaram os outros. Mas esse filólogo não era poeta. Era um grande erudito no domínio da exegese dos temas literários. Ele dar-meia razão.
Um abraço

Alexandre de Castro disse...

Se o filólogo fosse um poeta igual aos que pululam pelo Facebook, que fazem versos às escadinhas e de pé quebrado e ainda tomam a rima como regra geral, não tenhas dúvidas que ficaria na mira do meu poema, assim como ficaram os outros. Mas esse filólogo não era poeta. Era um grande erudito no domínio da exegese dos temas literários. Ele dar-me-ia razão.
Um abraço

olimpio pinto disse...

É! Tens razão!

Lembrei-me agora de dois - acho que conhecidos, mas muito estilosos:

De manhã fui à praia
E troce de lá um búzio
Qundo cheguei a casa
Em cima da mesa o púzio.

Amandei cuma maçã
À janela da minha amada
Ela não me respondeu
Hummm, aqui há coisa!

Talvez te lembres...

Abraço.

Alexandre de Castro disse...

No teu poema tu já falavas disso, mas não era eu o sujeito da ação.
Vê lá se lembras.
Se precisares, eu recordo-te.
Abraço