quarta-feira, 23 de maio de 2012

Levaste-me a ver o mar - poema de Sónia Micaelo*


Levaste-me a ver o mar...

Levaste-me a ver o mar.
Por momentos pousaste-me
para me falares dos peixes e das marés.
Dizias que eu era uma flor
que nasceu na margem errada.
Que naquele mar não havia pontes, nem barcos para mim.
No regresso nem reparaste que eu chorava...
Sabes? A flor chora quando a separam da raiz.
Sei que não tens tempo para apreciar a cor de cada flor.
Mas quando me vires seca, com a cor da morte ...
talvez te lembres do dia em que me levaste a ver o mar
...e chores comigo e por mim.
Sónia Micaelo

* Poema inédito, oferecido pela autora ao Alpendre da Lua.

7 comentários:

Maria disse...

A flor pode ter nascido na margem errada
Mas quem sabe...para onde são levadas as suas sementes
O mar pode não ter pontes
Mas...a maré sempre leva e trás
O peixe, esse só o apanha quem reconhece o isco...


Gostei muito.

Sónia M. disse...

Maria, há sementes que ganham asas...

Eu.....Suzana disse...

Você será sempre um linda flor e mesmo que algum dia pereça, os teus cheiros, a tua lembrança e teus feitos nunca se apagarão, serão vivas memórias agora regadas a lágrimas. Lindo poema e sensível como a própria autora. Abraços.

Alexandre de Castro disse...

Trata-se de um poema exemplar, engalanado com uma metáfora sugestiva e eloquente. Sónia Micaelo é uma "poeta" de grande sensibilidade, que consegue traduzir de uma forma transcendente o mundo convulsivo das suas emoções e sentimentos. É a "poeta" da tristeza e da melancolia, que, nos seus poemas, carrega uma dor profunda e um desencanto permanente nos seus encontros e desencontros com a vida.
O Alpendre da Lua precisa de mais poemas da Sónia Micaelo.

Sónia M. disse...

Suzana se eu continuar viva na memória de alguém mesmo depois que a terra me engula...poderei dizer que foi útil a minha existência. E quem não deseja isso? Obrigada minha amiga :)

Alexandre: A si não tenho palavras para agradecer...

Maria José Meireles disse...

"Morena, dos olhos d'água,
Tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar." (Chico Buarque)
Pessoas como a Sónia, jamais deviam ficar tristes.
Parabéns!...

Alexandre de Castro disse...

"Levaste-me a ver o mar" será, possivelmente, o melhor poema de Sónia M. Nele, a "poeta da melancolia e da tristeza", como eu já a apelidei, descobre o recurso de centrar a sua construção metafórica em factos concretos, isolados e parcelares, para os enquadrar numa teia poética discursiva, muito bem desenhada, no plano literário. O verso inicial, e que serviu para o título, é a grande metáfora que amplia o íntimo sentir da "poeta", traduzido na expressão de um profundo desencanto e de um ingrato desamor. Outra metáfora, de uma grande latitude significante, a marcar a textura do poema, encontra-se na frase "Que naquele mar não havia pontes nem barcos para mim", o que vem reforçar, de uma forma poeticamente exemplar, a sensação de abandono, após uma rejeição amorosa.
O equilíbrio formal do poema, despojado de redundâncias, e escrito numa linguagem escorreita, aproxima e envolve o leitor, que não consegue evitar uma certa emoção, necessariamente solidária com o elo mais fraco.
Publicado no Sussurros