sábado, 5 de fevereiro de 2011

Conto: Braga, ano de 2035 - por Joaquim Manuel Melo

Braga, ano de 2035
No antigo Colégio dos Arcebispos, hoje Universidade de Estudos Avançados em Comportamento Humano, terminara a sessão inaugural que marcava o início do novo ano lectivo.
O mais jovem Doutorado da Universidade, Professor Francisco Melo, ainda não se sentia totalmente recuperado da ovação que recebera quando terminara a lição magistral que apresentara a mais de um milhar de ouvintes que encheram o salão nobre da Universidade. Sendo certo que o título que dera à sua comunicação, “Contributos para o aumento da produtividade sexual dos Conventos” era, só por si, apelativo, nunca pensara numa manifestação de tão grande anuência por parte do auditório.
O único senão que obnubilava a euforia que sentia, era a ausência de seu avô, infelizmente já falecido há alguns anos, mas que tinha sido a representação mais marcante da sua juventude.
Essa figura renascentista, que tão bem recordava, sempre de traje talar confeccionado no melhor alfaiate de Braga e com as meias vermelhas da mais fina seda, ou lã, conforme a estação do ano, tinha marcado, não só, a sua vida como os destinos da Diocese e, mesmo, do País.
Compreendendo os desafios que iam ser colocados à Igreja Católica com a viragem do século soube utilizar tanto o poder político, como o financeiro, para conseguir que fosse escolhido como Papa um português.
Vinte anos depois de ter sido atribuído o prémio Nobel a um português comunista, a Cúria Romana reconheceu da necessidade de conferir a necessária importância a um dos últimos bastiões da cristandade no Mundo. Os milhões de euros que foram canalizados para Roma surtiram um efectivo efeito pelo que, desde há três anos, era um português que se sentava na cadeira de Pedro.
João XXIV, tal foi o nome adoptado pelo novo Papa, tinha sido estudante da Escola Superior de Estudos Teológicos de Braga, antes designada como Seminário, e, depois de receber as respectivas ordens, secretário particular do avô de Francisco.
Foi com ele que o iniciou nos delicados mistérios da convivência mundana e, de modo tão hábil, que houve sempre uma mão e, sobretudo, uma bolsa feminina, para afastar os escolhos do seu percurso para a púrpura cardinalícia que, não foi, assim, propriamente uma estrada de Damasco.
O ego nacional, massajado por tal situação, era terreno úbere para receber a semente da mudança tão necessária ao renascimento da Pátria que, com uma economia depauperada e sem a possibilidade de receber qualquer apoio dos seus parceiros europeus, era, cada vez mais, um espaço de conflitualidade latente preste a explodir.
Ora, e como sempre sucedeu em situações de crise, era a Igreja que detinha a proposta de salvação.
A Diocese de Braga, com o apoio financeiro do Vaticano, a maior potência financeira mundial, propunha-se encetar um programa de recuperação económica em tudo análogo aos que já tinham sido implementados, e com sucesso, na Albânia e Roménia.
O esteio fundamental deste programa, cujo acompanhamento operacional ficaria cometido a uma Universidade criada para o efeito, seria a recuperação, mesmo a criação, de todo um conjunto de conventos destinados à formação de jovens noviças não só nas artes milenares do Kamasutra como nos mistérios pantagruélicos da doçaria conventual, saberes há muito desvanecidos por força de políticas de controlo social que não só marginalizaram, como até proibiram, todas e quaisquer práticas susceptíveis de puderem ser qualificadas como epicuristas.
A “Carta Única “ estabelecida pelo Governo da Federação Europeia, à qual apenas não estava porem obrigado o Estado do Vaticano, tornara imperativo que as várias nações integrantes da Federação institucionalizassem um sistema de educação que pelo acrisolamento dos sentidos levasse a uma ascese universal capaz de ser a alternativa de sobrevivência ao caos que a sociedade de consumo globalizada conduzira a Europa.
O conceito de prazer, tido por nefasto, tornara-se apenas numa referência académica só abordável em instituições devidamente acreditadas para o efeito.
Com o pretexto de minimizar a crítica situação demográfica decorrente da implementação de tais políticas o Vaticano, assumindo a autonomia que detinha, apercebeu-se do interstício de liberdade que ainda podia desenvolver para minorar os efeitos de erosão financeira que tinha sofrido em consequência do encerramento das “sex shops” e empresas de acompanhantes na Europa. Não só fundos avultados tinham sido investidos em tal nicho de negócios, como, e bem mais importante, as informações obtidas em certos ninhos de prazer eram em absoluto necessárias para a definição de estratégias políticas de manutenção e reforço de poder.
Francisco Melo estava convicto que a missão que lhe fora confiada viria a ser um êxito e que o grupo de voluntários, já devidamente escolhido pelas suas singularidades genéticas, depois de uma convivência em clausura com noviças bem instruídas nas práticas do prazer, não só obnubilariam tudo aquilo que antes aprenderam como seriam a guarda avançada de um exército de “acompanhantes” capaz de fazer renascer o libido das europeias.
A exportação deste produto para a Europa do nevoeiro não só seria um contributo significativo para minorar o deficit da balança de pagamentos como estimularia o renascer de certos nichos comerciais em que o Estado do Vaticano tinha interesse directo.
Se tudo se desenvolvesse como era esperado em menos de uma década Portugal poderia voltar a ser uma potência expansionista guiada pela cruz e pelo pau.
Joaquim Manuel Melo