sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Conto: Porto, ano de 2035 - por Joaquim Manuel Melo

Porto, ano de 2035

Na cidade mais limpa da Europa e com o mais elevado rendimento “per capita”o dia começara da forma ordeira de todos os dias.
Graças à concretização de uma eficaz política de criação de espaços verdes, a cidade podia respirar uma atmosfera oxigenada e não poluída que, aliás, não era afectada pelo tráfego urbano, já que oportunas medidas legislativas proibiam a circulação de veículos poluentes num raio de 100km, sendo todos os transportes feitos em “overmobiles”, uma das invenções de maior sucesso da tecnologia desenvolvida nas universidades locais, que permitira a aplicação de uma energia limpa e de baixo custo, aos vários veículos que, silenciosamente, gravitavam sobre as ruas da cidade.
O elevado civismo da população, notória evidência do sucesso dos programas de educação para a cidadania, que, desde os finais do século anterior, tinham sido desenvolvidos nas escolas, suscitara que nos últimos três anos não tivessem ocorrido quaisquer acidentes de viação.
No vigésimo quinto andar do edifício Europa, Jorge de Vasconcelos reflectia sobre as várias soluções possíveis para resolver o problema que, de momento, o preocupava e que se prendia com a viagem ao Brasil que o seu jovem assessor Pedro de Miranda tinha de fazer. É que, nesse território selvagem do outro lado do Atlântico, falava-se um linguajar onomatopaico, que nada tinha a ver com a culta e refinada língua portuguesa, bem conhecida internacionalmente pelo seu rigor e beleza, graças aos meritórios trabalhos da Academia Filológica de Coimbra.
Embora em Portugal estivesse implantado um dos melhores sistemas de educação e ensino do mundo, já que todos os jovens, no fim da escolaridade obrigatória, dominavam, com fluência, vários idiomas, a verdade é que, talvez por pudor, continuava a considerar-se que a língua falada no Brasil tinha raízes na língua portuguesa, facto manifestamente anticientífico, já que a componente tupi e africana eram as bases etimológicas desse idioma, mas, possivelmente por isso, não se dava importância ao seu estudo.
Aliás, o Brasil era um território esquecido e marginalizado pelas nações europeias.
Em resultado de erróneas políticas económicas que começaram a ser postas em prática nos finais do século XX, esse eterno devedor, incapaz de ter governos que honrassem compromissos assumidos, vira-se, até há poucos meses, votado ao ostracismo por todas as nações civilizadas.
A superabundância em que se vivia em Portugal, levara, contudo, a que o Governo, num acto de filantropia, decidisse prestar algum auxílio à população desse território selvagem em nome de uma memória que ainda persistia.
A empresa de Jorge de Vasconcelos fora escolhida para assumir a direcção do Banco Central do Brasil, circunstância em absoluto natural já que nela trabalhavam alguns dos melhores economistas e gestores mundiais que, também em outros países, tinham implementado, com sucesso, os princípios doutrinários do “cadilhismo”, variação do grande quadro teórico que é a teoria “cavaquista”, responsável pelo milagre europeu.
Tais teorias, que tinham emergido na Faculdade de Economia da cidade, no segundo quartel do século passado, contribuíram para que essa escola se tornasse na mais prestigiada da Europa dessa área com um significativo número de laureados com o Nobel.
O milagre português, conseguido pela eficácia e eficiência das empresas e serviços públicos, era a prova cabal da qualidade do sistema educativo nacional.
Jorge de Vasconcelos sentia-se orgulhoso da alcatifa de lã que cobria os 75 metros quadrados do seu escritório, resultado do pelo de ovelhas clonadas no Instituto de Biogenética da cidade e tecido no mais sofisticado parque industrial da Europa por operários nacionais.
Desde os finais do século XX que as escolas portuguesas vinham a implementar, desde o ensino elementar, um modelo de educação tecnológica, complementado com uma componente cívico-patriótica, tendente a inculcar nas crianças, o orgulho em ser cidadão português e um artífice participante na construção do seu país.
O mérito desta política de Educação Nacional evidenciava-se no modo de estar da população, que, imbuída de um sentido colectivo de missão, desenvolvia todas as actividades produtivas com tão denodado espírito de sacrifício e honestidade que tornara dispensável a existência de serviços de controlo fiscal, já que todos, sem excepção, procediam, de livre e espontânea vontade, ao pagamento dos seus impostos.
Embora Jorge de Vasconcelos estivesse convicto que o seu colaborador, Pedro de Miranda, tinha a necessária preparação psicológica para romper, pelo menos durante algum tempo, com todo o equilíbrio que decorria da ordem social e moral existente no país, não deixava de admitir que algumas dificuldades poderiam sobrevir quando este fosse confrontado com o caos brasileiro.
Era, pois, necessário dar-lhe as melhores condições para que pudesse defender-se do mundo caótico onde teria de desempenhar a sua missão, pelo que se tornava essencial que Pedro de Miranda não tivesse nenhuma dificuldade de comunicação com os brasileiros.
De repente, como um “flash”, a solução surgiu.
A Sandrinha, aquela morena com uma gota de sangue índio e duas de africano que trabalhava no sector de teleprocessamento do 3º andar, sempre vestida com qualquer coisa exótica que parecia ter dois números menos que o necessário e exalava um cheiro agridoce perturbador. As suas memórias ainda retinham a lembrança desse cheiro que exalou num dos dias em que, por engano, entrou no elevador que servia o pessoal não dirigente da empresa. Fora por isso que fizera um pequeno inquérito tendo vindo a saber que a Sandrinha, brasileira de nascimento, estava há dez anos em Portugal e, embora já soubesse escrever em português, não o falava com a fluência necessária que lhe permitisse ter outra tarefa que não fosse a de comunicar com uma máquina.
A Sandrinha era a solução. A empresa pagaria todas as despesas e, à noite, o Pedro Miranda teria com ela lições de brasileiro. Possivelmente ia ser um grande sacrifício para o Pedro, mais habituado às jovens discretas e assépticas do Club Inglês, mas a carreira profissional tinha, também, os seus sacrifícios.
Não podia esquecer-se de mandar verificar a ficha médica da Sandrinha. Não que o Pedro fosse capaz de se expôr a qualquer situação menos conveniente, porém o sangue selvagem é sempre imprevisível.
Joaquim Manuel Melo
Lamego 1990