quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Conto: Funchal, ano de 2035 - por Joaquim Manuel Melo

Funchal, ano de 2035

A luz do sol expandia-se de forma suave pela sala de trabalho do engenheiro José Pomar. Os artífices locais, graças à formação recebida no Instituto Tecnológico da Madeira (I.T.M.), tinham conseguido desenvolver uma tecnologia inovadora que permitia, com recurso à casca de banana, produzir um peculiar tipo de persianas que, não só filtravam a luz solar, como evitavam os efeitos nefastos da radiação ultravioleta que, nos últimos anos, tinha aumentado no Mundo para valores de extrema perigosidade.
O engenheiro José Pomar liderava a classe política da ilha desde há mais de uma dezena de anos, pois assumira o poder logo após a declaração de independência.
Agora, e com a tranquilidade conferida pelo passar dos anos, interrogava-se sobre as vantagens desta independência, conseguida na sequência de uma situação manifestamente bizarra.
Tudo começara devido a acontecimentos que ocorreram na ilha de Timor, praticamente nos antípodas, e à excessiva vontade de protagonismo de um governante seu antecessor.
Na viragem do milénio a República da Indonésia, confrontada com pressões internacionais, resolveu abdicar das suas pretensões sobre Timor.
O então responsável pelo governo da Madeira, Dr. João Canteiro, sabendo que existia uma grande comunidade de naturais da ilha no continente australiano, vislumbrou uma estratégia tendente a levá-los a emigrar para Timor e, assim, se substituírem aos indonésios. Confiava esse governante, e disso deu notícia aos lideres de opinião com que contactou na Austrália, que o Governo português, enquanto a potência administrante, iria ter em relação a Timor um procedimento análogo ao que vinha a ter com os seus territórios insulares dos quais suportava o eterno défice da balança de pagamentos.
Tais promessa tiveram acolhimento em muitos dos residentes na Austrália que, cansados da segregação racial de que sentiam, vítimas devido à cor da pele, viram no novo território um espaço de liberdade e de elevação de status social face aos nativos.
A população do território de Timor em pouco tempo triplicou devido ao êxodo de madeirenses provenientes não só da Austrália mas, também, da África do Sul, Venezuela e da própria ilha.
Contudo, e porque as circunstâncias mudaram na Europa, o auxílio esperado do Governo português foi bem menor do que seria necessário.
O responsável por todo este projecto, inconformado com a falta de solidariedade do Continente, resultado, em sua opinião, de uma cabala orquestrada pelo sionismo internacional, maçonaria, comunistas, católicos progressistas e franciscanos, decidiu que a única solução que lhe restava era derrubar pela força o Governo continental.
Aproveitando-se de um convite que lhe tinha sido feito para que o grupo “Poncha a Baixo” viesse animar as festas de verão na cidade de Lisboa, delineou uma estratégia para o assalto ao Poder.
As bengalas de cana, que os membros do grupo deviam levar consigo, foram preparadas num antigo mosteiro que existia na ilha e onde, desde há alguns anos, funcionava um centro iniciático de ciências ocultas, que tinha sido fundado por um sacerdote brasileiro que foi obrigado a abandonar a ilha em circunstâncias algo desagradáveis.
Esse sacerdote tinha, porém, deixado um legado de saberes cabalísticos que tornavam possível dotar certos objectos de poderes especiais, designadamente o de serem inversores da sexualidade humana masculina
A estratégia delineada para o ataque tinha por propósito inverter a sexualidade dos membros do Governo continental que, como era esperado, estariam a assistir à actuação do grupo. Sob a ameaça desta situação se tornar irreversível o Governo teria de ceder à exigência de canalizar para Timor 50% do P.I.B. mesmo que isso significasse a fome e a miséria dos que viviam no Continente.
Na noite do desfile, os figurantes do grupo “Poncha a Baixo”, que tinha por porta bandeira o próprio Presidente do Governo Regional da Madeira, quando passaram em frente da tribuna onde se encontravam os membros do governo e convidados, apontaram as bengalas e um clarão de luz iluminou os céus.
O que se passou a seguir mereceu, depois, variadíssimas descrições. O único facto certo é o de que se encontrava entre os convidados o Dr. Pedro Janela chefe do partido da oposição.
Quando o clarão de luz se desvaneceu foi patente que era ele o que se encontrava mais alterado. As maneiras suaves que o caracterizavam deram lugar a um esgar másculo a acompanhado por uma voz tonitruante, que mais fazia lembrar a do poeta tribuno.
Agarrem esse gajo! Gritava, apontando para o Presidente do Governo Regional da Madeira que, na confusão que se tinha gerado, tinha deixado cair a bengala.
Com um salto acrobático Pedro Janela filou pelo pescoço João Canteiro dando-lhe, violentamente, com a bengala na cabeça.
A força da pancada foi tal que estilhaçou um frasco de cristal, que Canteiro transportava ao pescoço, e que continha o antídoto que possibilitaria pôr fim ao embruxamento.
Estranhamente, Canteiro deixara de reagir à agressão e só dizia com voz doce:
Bate mais! Bate mais.
Os tempos que se seguiram foram algo conturbados.
A maioria dos membros do Governo tinham ficado irreversivelmente afectados com o ataque e as reuniões do Conselho de Ministros passaram a ser algo peculiares devido às guerras surdas que surgiram já que todos queriam a pasta da Defesa ou da Administração Interna, pois o frequentar paradas tornou-se o maior dos deleites. O sector feminino da governação, ainda que em minoria, pese embora a política de quotas que tinha sido implementada, tentou um golpe palaciano, tendente à assunção do Poder. A situação atingiu um estado de degradação tal que foi necessário convocar eleições.
Paulo Janela, com o apoio de uma facção política basicamente do Norte, consegue ser eleito Primeiro Ministro tendo, como primeiro acto da sua governação, apresentado à Assembleia da República uma medida legislativa tendente a dar a independência total à ilha da Madeira.
Os deputados, traumatizados pelos acontecimentos e temerosos que outros malefícios viessem dessa ilha, não só foram favoráveis à concessão da independência como legislaram no sentido de proibir a entrada em território nacional dos naturais da ilha.
João Canteiro, depois de um julgamento sumário, foi exilado para Timor onde, tanto quanto se sabe, passou o resto dos seus dias a escrever um ensaio de Ciência Política a que deu o seguinte título “As vantagens da banana versus os charutos cubanos” e que teve grande aceitação nos Estados Unidos da América.
A sedição de João Canteiro não suscitou, apenas, a independência da ilha, mas foi, também, responsável por um período de grandes dificuldades para os madeirenses.
O programa “Lua-de-mel”, um dos mais vulgarizados nas agências turísticas internacionais e que tinham por destino a Madeira, deixou de ter clientes já que nenhum noivo se sentia seguro perante os eventuais efeitos da bengala madeirense.
O Governo de Salvação, que se constitui na ilha após a prisão de João Canteiro, lançou uma campanha informativa junto da imprensa internacional com o propósito de desvanecer qualquer temor sobre o perigo das bengalas já que, de facto, o mesmo tinha desaparecido quando da destruição do antídoto. Essa campanha teve, porém, efeitos perversos nos mercados turísticos do norte da Europa que deixaram de ter interesse por um local onde as pessoas passaram a ser apresentadas como detentoras de uma sexualidade padronizada.
A crise só começou a ser superada quando se tornaram evidentes os sucessos tecnológicos conseguidos no Instituto Tecnológico da Madeira.
A capacidade de reclassificar como matéria-prima de interesse estratégico produtos que antes eram considerados como lixo, despertou o apetite de investidores internacionais.
José Pomar sabe que, embora o espectro da fome se tenha afastado da ilha, ainda há muito para fazer. A sua esperança reside numa descoberta, ainda não divulgada, que foi feita por investigadores do I.T.M.
Partindo da análise do processo reprodutor das orquídeas, espécie floral abundante nas ilhas, verificaram que era possível criar uma essência odorífera capaz de suscitar alterações no líbido dos que a cheirassem. O problema, que ainda não está ultrapassado, é que os efeitos deste perfume só ocorrem entre as pessoas de sexo feminino.
Esta limitação tem sido a principal causa da contenção de João Pomar, que não deseja ver a sua ilha transformada em reino de Amazonas.
As necessidades de sobrevivência podem, porém, obrigá-lo a mudar de opinião e, se tal vier a acontecer, os homens que se cuidem.
Joaquim Manuel Melo
Lamego 1990