segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Conto: Lisboa, ano de 2035 - por Joaquim Manuel Melo

Lisboa, ano de 2035

No alto de uma das colinas, debruçado sobre o Tejo e integrado num dos poucos espaços verdes que ainda subsistiam na cidade, ficava o Colégio Jacques Delors. O seu director, Hans Mussen, relia, uma vez mais, as notas que tinha preparado para a reunião que ia ter com os professores.
A luz que o Tejo reflectia era um factor de permanente perplexidade para este alemão do Ruhr, mais habituado aos nevoeiros do que ao sol meridional, agora cada vez mais avermelhado em consequência da atmosfera ultra poluente que tinha que atravessar.
Os últimos três anos da vida de Hans Mussem não tinham sido fáceis. Enviado para o país dos “carneiros dóceis”, epíteto que os portugueses tinham na Europa, a sua tarefa era a de supervisionar a formação de duzentos futuros gestores destinados a empresas e serviços públicos da África, América Latina e, também, Portugal.
O Governo português, incapaz de cumprir os princípios da convergência monetária a que se tinha obrigado, perante os seus parceiros europeus, viu-se na necessidade de entregar todo o tecido produtivo a empresas estrangeiras como forma de minorar os défices permanentemente acumulados.
Desde o ano de 2015 que todas as empresas, e mesmo os serviços públicos, eram dirigidos por estrangeiros, sendo a governação da “Rés Pública” meramente virtual.
Por tais razões institucionalizou-se no país um curioso nivelamento social, já que nenhum nativo era detentor de qualquer meio de produção.
Estas circunstâncias suscitaram condições muito favoráveis para que pudesse ser testado no país todo um conjunto de teorias alusivas ao modo de controlo de trabalhadores, sem que tal dominação suscitasse qualquer espécie de resistência, ou revolta.
Foi apenas necessário descobrir como perpetuar o limite da sobrevivência numa sociedade educada para não ter esperança.
É certo que ainda existiam algumas seitas marginais, que apenas eram incómodas pelos pequenos furtos que realizavam, já que a violência tinha sido completamente irradiada graças a um eficiente programa de educação para a passividade a que todos os naturais estavam sujeitos desde que entravam para os jardins de infância.
Mas esta excessiva passividade da população incomodava Hans Mussen, já que não lhe dava a possibilidade de aplicar alguns dos métodos de controlo social que gostaria de testar.
Como criativo que era, lamentava não ter conhecido o país no tempo em que este era governado por uma Ditadura Burofágica. Então sim, a sua peculiar teoria da manipulação das massas teria tido um excelente cenário para se desenvolver.
Agora, só lhe restavam os problemas da direcção do colégio, embora nem sempre fosse fácil domar as características algo peculiares de alguns dos professores que integravam o corpo docente.
Um dos mais difíceis era o irlandês Patrick Ryan que, tendo descoberto a propensão dos indígenas para um messianismo decadente, deambulava, a horas impróprias, pelas ruelas da parte velha da cidade tentando registar alguns ritos clandestinos de exaltação de uma venusiana que, nos princípios do século XX, e devido a um acidente da sua nave, pousara, por breves momentos, numa localidade chamada Fátima.
O que de mais grave advinha da pesquisa antropológica de Ryan era a utilização que este dava ao material que recolhia, já que, servindo-se dele para ilustrar as suas aulas, suscitava nos alunos a ideia de que os indígenas tinham outras preocupações para lá da simples sobrevivência.
Felizmente o escocês Mac Paterson, professor da disciplina Técnicas de Controlo de Pessoal, estava a realizar um excelente trabalho com a experiência que desenvolvia junto dos trabalhadores do colégio responsáveis pela limpeza e manutenção, aos quais impusera uma dieta alimentar só à base de granulados, que teriam de consumir utilizando, apenas, garfos de dois dentes.
Era espantoso como as campanhas de higiene e civilidade, a que tinham sido sujeitos nas escolas do país, surtiam efeito, já que nenhum deles tentava utilizar as mãos para recolher os grãos que lhes são servidos e isto porque lhes tinha sido inculcada a ideia que comer com as mãos era impróprio de um europeu. Para lá de consumirem muito menos comida, mantinham-se ocupados a pensar em estratégias que os tornassem capazes de recolher mais grãos com aquele tipo de garfos.
Não podia esquecer-se de chamar a atenção de Madame Berger, a professora da disciplina de História e Cultura Europeia, para o despropósito que era continuar a referir-se aos indígenas quando, nas aulas, aludia aos acontecimentos que tinham ocorrido na Europa no século XVI. Era um conjunto de episódios tão pouco importantes que podiam, e deviam, ser omitidos.
Mas, de momento, aquilo que era a sua grande preocupação relacionava-se com a situação criada pela professora de Ciências da Natureza, a dinamarquesa Olgin WanderWelt.
Embora a disciplina que leccionava fosse uma justificação para as suas frequentes deslocações às estufas, que ficavam nos jardins do colégio, de modo algum se aceitava que o fizesse durante a noite.
Hans não tinha dúvidas que a razão de ser das deambulações nocturnas da dinamarquesa era o jardineiro Manuel, um primitivo oriundo das regiões do norte do país e que, aparentemente, só sabia falar com plantas e, vá-se lá descobrir como, também com a dinamarquesa.
Esta história sórdida tinha alguma semelhança com aquela que, no século passado, um britânico inconformista, chamado W. H. Lawrence, tinha narrado num romance decadente.
Porém, a gravidade desta situação era, também, a de suscitar algum desequilíbrio nas, já frágeis, relações interpessoais da comunidade não nativa que vivia no colégio. É que, sendo Olgin uma das poucas fêmeas disponíveis, a sua ligação com o jardineiro em nada contribuía para que esta anuísse às solicitações que lhe eram feitas por Mateus Macarius, professor de Teatro Clássico, que tinha de buscar refrigério para o seu sangue quente mediterrâneo nos corpos das adolescentes que frequentavam as suas aulas.
Hans não conseguia compreender como é que o jardineiro tinha passado indemne ao programa de educação sexual, que, desde há vinte anos, decorria nas escolas portuguesas e que levava os indígenas a rejeitarem contactos físicos com estrangeiros. Este programa, que tinha sido financiado pelo Governo Central Europeu, visava erradicar das zonas periféricas da Europa doenças que há muito já tinham desaparecido dos lugares verdadeiramente civilizados.
Possivelmente, a região, de onde Manuel era proveniente, era demasiado inóspita para que tal programa educacional de rejeição se pudesse aí ter desenvolvido.
Hans fez um esforço para se prender à realidade. As informações que, nessa manhã, obtivera junto do Governo Central Europeu eram de tal modo inesperadas que não era de excluir que uma profunda alteração viesse a ocorrer na sua vida futura.
O último país periférico dos Estados Unidos da Europa, a Rússia, tinha formalmente solicitado ao Governo Central que assumisse a gestão da sua economia em estado de absoluta depauperação.
Tornar-se-ia assim necessário organizar cursos de língua russa no Colégio Jacques Delors, já que alguns dos actuais alunos iriam, por certo, ser chamados para desempenhar funções de gestores em empresas e serviços públicos soviéticos.
Hans Mussen estava esperançado que outro colégio, maior e com mais alunos, viesse a ser aberto em Moscovo e que lhe fosse feito o convite para assumir a sua direcção. Seria a concretização de um sonho de toda uma vida. Conquistar pacificamente aquilo que, por acidente histórico, tinha sido recusado a um seu compatriota da Baviera.
Era, enfim, a concretização da profecia clarividente de De Gaulle, “uma Europa unida da Finisterra aos Urales”, agora sob a hegemonia da Alemanha, afinal um povo, desde sempre, predestinado para dominar impérios.
Lamego 1990
***
Este conto de Joaquim Manuel Melo (uma short story), assim como mais dois que irão ser publicados brevemente no Alpendre da Lua, insere-se num universo ficcional, de características orwellianas, que o autor desenvolveu primorosamente, projectando uma visão premonitória de Portugal para o ano de 2035. Em 1990, ano em que os textos foram escritos, se tivessem sido publicados, talvez suscitassem, tal como afirmou o autor recentemente, "alguns sorrisos, que é o que se necessita nestes tempos cinzentos". Hoje, perante a degradação do país e do vendaval de uma crise, cujo fim, a vista ainda não alcança, mas que vai deixar feridas insanáveis no tecido social, a premonição anunciada parece aproximar-se tendencialmente da realidade, o que amplia o mérito desta peça literária.
Joaquim Manuel Melo foi meu colega no Liceu de Lamego, e é da sua autoria o brilhante prefácio, que muito me honrou, do meu romance O Bando do Liceu, que publiquei em 2007. É também com muito prazer que o recebo, como colaborador, neste humilde espaço.
Alexandre de Castro

1 comentário:

Anónimo disse...

molto intiresno, grazie