sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Anotação do Tempo: Dissertação sobre a festa de despedida de solteiras...



Dissertação sobre a festa de despedida de solteiras…

O espectáculo vai começar no tempo ordenado
pelas conveniências das novidades, que se regem
pelas leis gravitacionais.
As raparigas solteiras, que já não acreditam nas fantasias
das fadas de encantar - as fadas do lar já morreram todas,
depois de inventada a pílula do dia seguinte - guincham
de nervosismo e vão fazer bicha no lavabos, aos saltinhos,
como se ainda estivessem na idade de saltar à corda,
e com a membrana da virgindade intacta.
Rabiscam com o baton, no espelho embaciado, falos erectos
e corações de cupido, trespassados por setas, para que
a excitação fique na memória.
Acenderam-se as luzes e brilharam as lantejoulas do palco,
e o homem sexual articulado, envolto num halo cónico de
luz afrodisíaca, exibe a sua majestade de cobridor, olhando
aquela manada e passeando-se em passos lentos pelo
redondel.
Deixa-se retratar pela voracidade dos olhares oblíquos,
que esquadrinham as poses apolíneas, de sedução duvidosa.
Desgrenhando freneticamente os cabelos com as mãos,
excitadíssimas, elas querem vê-lo despido, tactear os músculos
desenhados em ginásios apocalípticos, com máquinas de tortura,
inventadas na guerra, a fazer saltar as veias grossas e azuis dos bíceps,
úteis para os arrebatadores abraços mortais.
E é aquela anatomia toda, oleada e escorregadia, que elas
levam para a masturbação da noite, pois já não sonham com
nenhum macho que lhes acalme a febre do sangue, a não ser
aquele actor, que levam nos dedos húmidos
para adormecer serenamente depois do êxtase dos orgasmos.

Alexandre de Castro