segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Anotação do Tempo: Dissertação sobre uma viagem de fantasia...


Dissertação sobre uma viagem de fantasia…

Embarquei naquele comboio
para fazer uma viagem de fantasia.
Prometiam experiências estrelares
com brumas de incensos da mais exótica alquimia
intensos cheiros de essências africanas,
sem semáforos a controlar o trânsito das avenidas
do prazer, e também ofereciam fruta da época,
em cada apeadeiro.
Escolhia-se a paisagem mais agradável
a cada olhar. Bastava meter uma moeda
na ranhura de uma máquina de cores berrantes,
e até podia compreender-se a esterilidade da Lua,
(que não tem nada a ver com a Lua dos poetas
românticos, que acabaram por a transformar
na puta mais matreira do Universo, de tanto a cantarem),
e perceber por que Marte é vermelho, ou experimentar
a volúpia dos anéis de Saturno a fazer-nos cócegas
à volta do umbigo, nos seus rodopios de vertigem.
Dizia-se no anúncio publicitário que quem se perdesse
nas nuvens seria recuperado na secção dos perdidos
e achados, o que permitia a cada passageiro
ultrapassar os seus medos e os próprios limites da fantasia,
para poder conquistar a eternidade.
Tive pena de não te ter levado comigo, para libertares
os sentidos das leis da gravitação universal.

Alexandre de Castro

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