domingo, 19 de setembro de 2010

Anotação do Tempo: Dissertação sobre o Génesis...




Dissertação sobre o Génesis...

A José Saramago,
O grande escritor, que alguns insultam,
mas que muitos admiram.

Só quando abriu a porta do paraíso,
para sair,
é que descobriu que havia
mais mundos
pensou que poderia encontrar
outra mulher
Eva nunca chegou a cortar-lhe
a respiração
embora tivesse a certeza que a trazia
bem fodida
como mandava a praxe divina
também não perdoava à mulher
aquela maldita maçã
que lhe ficou atravancada
na garganta
a subir e a descer, enquanto
falava ou comia
agora já sabia quem mandava
dentro e fora do paraíso
e, logo ali, veio-lhe à cabeça
que talvez pudesse encontrar outros homens
iguais a si
que se propusessem em conjunto,
o que seria uma novidade,
desafiar a soberba do Senhor,
ele lá deveria ter as suas fraquezas,
mas enquanto assim pensava
a olhar para os cardos e os calhaus
do caminho
arrepiou-se-lhe a pele, como a um ouriço,
pois o Senhor poderia ter-lhe adivinhado
aquele seu secreto pensamento,
Foda-se, disse Adão,
que mal fiz eu, para ter de vir ao mundo
e ter merecido este castigo divino,
por uma culpa que eu não consigo ver
e foi nesse momento de raiva, que se virou
para Eva, que vinha mais atrás,
como manda a regra,
e, no futuro, há-de mandar a tradição,
e lhe disse para abrir as pernas
pois viera-lhe, de repente, uma enorme vontade
de foder.

Alexandre de Castro

4 comentários:

Alexandre de Castro disse...

Vânia Cairo (publicado no Facebook)
Meu poeta, tu fazes um paralelo satírico entre O Livro das Origens onde consta também a formação do universo , do homem e da mulher[visão religiosa ] com a atual situação de libertinagem humana. Saramago é citado como uma metonímia[parte pelo todo]. Tua crítica é bastante sugestiva ao que tange ao existencialismo humano.Este texto é uma paródia...Por sinal, muito bem feita, elaborada. Bjos

Alexandre de Castro disse...

Estreio-me neste grupo do Facebook, As Meninas do Face, com um poema que dedico à Sissa Brasil. Para o escrever, há uns tempos, inspirei-me no livro "Caim" de José Saramago, o autor que me aproximou desta recente amiga, pois vi na sua página do Facebook a transcrição de uma frase emblemática deste grande escritor.
Poderá parecer um poema deslocado do tema que se comemora hoje, o Dia Internacional da Mulher, em que a maioria das pessoas se refugia num discurso laudatório sobre as virtualidades da Mulher. esquecendo ou ignorando o que ela sofreu desde os alvores da Humanidade. E as religiões do Livro tiveram e têm uma grande responsabilidade na subalternização do género feminino. Para o Judaísmo radical, para o cristianismo mais retrógrado e para o islão fundamentalista, as mulheres ainda estão sujeitas à humilhação de lhe serem negados os mais elementares direitos. O poema trata disso. A bíblia é um livro de homens que fala de homens, e quando fala da Mulher, é para, só e apenas, enaltece-lhe os valores da cega obediência a deus e ao marido, o seu senhor, e louvar-lhe a sua humildade e a sua castidade castradora. E o grosseiro e vernáculo discurso, onde me socorro do calão, tem por objetivo fazer estremecer as leitoras.
Sissa Brasil: Julgo que vais compreender-me.

Alexandre de Castro disse...

Comentário retirado do Facebook.

Sissa Brasil: ‎Alexandre de Castro, o teu poema retrata assim como Saramago em sua obra Caim , o convívio de Adão e Eva , bem como os conhecidos efeitos da gula por uma certa maçã proibida...onde a viagem pelo mundo real e mundo interior do protagonist...a se mesclam. Deste uma outra versão de Adão e Eva despido de quaisquer preconceitos numa linguagem simples e de baixo calão (como tu mesmo falaste)Só se sentiria ofendido com tal poema quem não respeita a liberdade de expressão...

Alexandre de Castro disse...

Comentário retirado do Facebook:

Sissa Brasi:
O teu poema prende a atenção do leitor do início ao fim...Parabéns mais uma vez!...
l8 de Março de 2012 19:20