domingo, 4 de julho de 2010

Anotação do Tempo: Carta a Picasso


Carta a Picasso

(A propósito da pintura “Les Demoiselles d’ Avignon”)*

Não sei se as fodeste, antes de as pintares
para lhes matar o erotismo e a beleza
sei que não te enforcaste atrás da tela
como previra Derain
a carne rósea está lá, bem esquadrinhada,
sob o fundo azul da tua matriz original
e em explosivo esplendor,
resultado da tua arte,
mas espartilhada na frieza
das linhas firmes
rasgadas a régua e a esquadro.
Os rostos foram talhados a machado
e só os olhos brilham
em esquadrias angulosas
e não sei se há naqueles olhares
um qualquer desapiedado desprezo
ou algum apelo ou desagravo
ou até uma incisiva acusação,
pois ternura e afectos são coisas que lá não vejo.
Eu sei que te inspiraste em formas arcaicas
embora negues a herança negróide
do nariz de todas elas
mas quero dizer-te, Picasso,
com esta geometria descentrada
salvaste a pintura e a Humanidade
e soubeste afirmar a arte como mentira
tal como Plínio afirmou
a propósito daquele pintor romano
que pintou uvas tão perfeitas
que até os pássaros as foram debicar.
E, para comer, tu apenas nos deixaste
no fundo da tela
o cacho de uvas, a pêra, a maçã,
e uma talhada de melancia.
És um forreta, Picasso,
e agora já sei que as fodeste, antes de as pintares.

Alexandre de Castro