quarta-feira, 16 de junho de 2010

Anotação do Tempo: Dissertação sobre o trânsito da noite...


Dissertação sobre o trânsito da noite…

Quando chegaste à avenida
com os cabelos oxigenados
de meias pretas, saltos altos e saia curta
ainda cheiravas a sal
e não me disseste que a porta do teu prédio
era de ferro
e que o estendal da roupa
dava para a rua
nem que as mulheres que lá habitam
mostram a boca desdentada
quando ralham, aos gritos, com os seus filhos
só me disseste que tudo se dissolvia na tua boca
e que deixaste de vender peixe no mercado
porque não gostavas de cheirar a maresia.

Alexandre de Castro

1 comentário:

Alexandre de Castro disse...

A uma amiga que disse que se assustou com este poema, respondi assim:
"É uma realidade muito dura, mas é a realidade, à qual não podemos fechar os olhos, mesmo com as mais pias das intenções. E a Poesia, como arte literária, não a pode ignorar, sob pena de se transformar num jarro de flores. Trata-se de um poema, inserido na corrente neorealista, que muito me influenciou, nos idos tempos dos anos sessenta, do século passado. Pelo menos, este poema já teve um mérito: abanou a consciência de uma pessoa, a amiga Laura S. A Laura não tem que se assustar. Tem que admitir que o mundo não é cor de rosa, como muita gente o quer pintar. E, por vezes, são precisamente aqueles que querem pintar o mundo cor de rosa os mais perigosos lobos desta selva em que vivemos. Um beijinho para si, amiga Laura S".